quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

As palavras certas, o lugar certo.

Educar é construir um espaço íntimo e lúdico, entre eu e você, aqui e agora, não importa o tempo-espaço.

Meus alunos sempre gostaram de aprender com as histórias da vida. Acho que nascemos "talhados" para as emoções narrativas...

Crônica

Década de 80. Eu era criança e minha casa se parecia com uma galeria de arte. A parede quase não se via, debaixo de quadros de todos os tamanhos e cores de moldura.

A estante de livros ficava em frente ao sofá, no qual eu des-assistia televisão, de ponta cabeça. Aprendera a ler há pouco, juntando as sílabas das palavras nas lombadas dos livros dessa estante. Nunca soubera até então onde ficavam os acentos das palavras, e lia encantada "Stanislavskí". Com acento no final. E lia e relia outros títulos misteriosos...A volta do parafuso...ele iria retornar?...de onde?....ah....será que é porque o parafuso dá voltas?....pergunte ao pó...como assim?...o pó não sabe nada!...que sabe da vida o pó?...Fante...Elefante, Fanta, John fanta, John Fante Elefante.....Andorinhas de Simone de Beauvoir.....be-au-vou-ir...vou ir, andorinhas....O Zen e a Arte de Consertar Motocicletas.......e eu imaginava o monge desmontando pacificamente todas as motos.....

O divertido da história toda foi, recentemente, comentar isso tudo com a minha mãe e ela, encucada, ficar tentando descobrir a que livro da Simone de Beauvoir eu estava me referindo, até as duas descobrirmos, juntas, que se tratava de "O mandarim" - e que as andorinhas ficavam realmente por minha conta...

Flash Forward, alguns anos depois....

E aí eu tinha onze anos e estava descobrindo a poesia. Encantada por Paulo Leminsky. Poesia existia, e chamava Paulo Leminsky. Leminsky era uma daquelas lombadas, ficava perto do Stanislavskí na estante....Mas o livro era meio diferente, por vários motivos. Primeiro, ele era enorme! Parecia um livro de escola, livro de arte....A capa parecia feita de xerox ampliado; a tinta da impressão aparecia com todos os defeitos. O nome do livro era enorme....nem parecia nome de livro. Era tão grande que nem tava escrito na lombada. Chamava alguma coisa bem maluca, tipo:
"Não fosse isso era menos
Não fosse tanto era quase"
E isso estava escrito na capa, bem grandão, estouradão, num formato que lembrava o que pouco depois eu iria descobrir se chamar hai-cai.
Além disso, esse era um dos livros da estante de casa que tinha uma coisa especial: era assinado pelo autor e dedicado a minha mãe. Então ela ficava uma arara quando eu levava escondido pra escola. Por algum motivo bem auto-destrutivo porque não havia uma só criança que compartilhasse, naquele momento, da minha paixão recém descoberta por ele, e pelos Beatles.

Havia mais dois livros assinados cujos autores curiosamente eu fui descobrindo ao longo dos anos: um de um poeta fantástico chamado Chacal, que eu aos 12 ou 13 anos iria descobrir e me fascinar...e outro de um camarada chamado Caetano Veloso, "Alegria, Alegria".

O Caetano Veloso era uma figura meio mítica pra mim. Minha mãe tinha vários vinis que eu adorava, especialmente o "Cores e Nomes" e o "muito", e desde criança ouvia ambos repetidamente. A capa dos discos sempre me intrigou muito, e eu a sexualidade dele pra mim sempre foi um mistério.

Lembro de ainda ser criança e me fascinar com a voz do filho do Caetano naquela música, qual mesmo....? Ilê ayê....e pensar, bom ele tem um filho, canta o amor por várias mulheres, ok....e daí ouvir músicas como Menino do Rio e ficar tentando entender porque ele cantaria isso para um menino. Lembro de conversar com minha mãe sobre isso, talvez a primeira conversa sobre homossexualidade, e de ela me explicar que todo homem tem um lado feminino e tal. Acho que essa parte propriamente dita eu fui entender muitos anos depois, ouvindo Super Homem do Gil, e entendendo que na verdade essa história de yin-yang está muito além da sexualidade do Caetano....

Mas me lembro muuuuuito bem da imagem do caetano de sunga de crochê e do "calor que provoca arrepio", e tudo isso na minha cabeça de uma maneira bem pasolini....Acho que o Caetano e seu jeito aberto de falar da sua sexualidade me inspirou muito na forma de lidar com minha própria....imaginar que um cantor público como ele poderia ter a liberdade de exaltar um menino do rio é criar uma imagem muito poderosa para uma criança....

E aí estou contando tudo isso para dizer que pouco depois de descobrir o Leminsky, comecei a estudar poesia na minha escola, que não por acaso se chamava oswald de andrade. Comecei, claro, pelo próprio, e em pouquíssimo tempo estava fascinada com os modernistas.

Comecei escrevendo para a aula de redação, que chamava-se algo como "Comunicação e Expressão"(porque as pessoas tem a mania de tucanar as coisas...). E logo escrevia poesia a torto e a direito.

A professora, Ana Cláudia, dava estímulos interessantes para que escrevêssemos. E num desses exercícios escrevi um poema que chamou sua atenção. Ela leu e me disse: - Guarde esse poema e releia daqui a muitos anos. Você só vai entendê-lo de verdade daqui a muitos anos. Não guardei, mas decorei, pois era simples e dizia muito sobre mim, na época e agora.

Ele era exatamente assim:

"Penso muito bem antes de fazer as coisas.
Mas não penso antes de comer as coisas.
Da comida eu gosto de sentir o gosto.
A coisa eu gosto de fazer certo."

Passei anos meditando sobre o poema sem entender do que a Ana Cláudia falava. E esqueci por muitos anos. Outro dia lembrei dele e de repente me caíram fichas e um telefone público na cabeça.

Existia e ainda existe dentro de mim essa cisão, esse ying-yang profundo e integrado, essa dimensão racional que tantas vezes se distancia do corpo, que não pensa.

Uma criança sabe tudo. A vida se encarrega de estragá-la.

Entre um tempo e outro relatado nessa crônica, eu estudava na vila madalena e muitas vezes caminhava até o atelier de uma amiga da minha mãe, artista plástica, a Rozélia. Entre a escola e o atelier ficava, aliás ainda fica, o mítico empanadas...E foi lá que, com minha mãe e seus amigos, eu muitas vezes ficava depois da escola, ouvindo suas conversas de adultos artistas e poetas, sobre a vida, a política, a cultura. Muita política e muita cultura.

Numa dessas estadas no Empanadas minha mãe me chama e diz: taí filha, deixa eu te apresentar uma pessoa....esse é aquele poeta que você gosta, do livro grande...daquele poema que você decorou....

Ele sorriu pra mim. O bigode era fenomenal. Perguntou seu eu gostava de seus poemas e eu disse que gostava especialmente de um. Minha mãe avisou que eu sabia de cor, porque gostava de recitar para as pessoas. E então disparei o poema, cara a cara com seu autor, certamente sem imaginar o efeito cômico da cena. 9 ou 10 aninhos de pura cara de pau, olhando para o meu ídolo Paulo Leminsky:

"O Paulo Leminsky
é um cachorro louco
que deve ser morto a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhadaputa
fazer chover em nosso piquenique".

Esse é o poema da minha vida. Leminsky implodiu a si próprio, e botou lenha no meu fogo. Nunca parei de escrever. Ás vezes escrevo em cinema, só pra variar. Ou tento fazer das minhas aulas uma espécie de poesia.

Tudo isso pra dizer que.....

As lombadas dos livros da minha mãe falam mais da minha história do que meu currículo vitae. Minha sala de aula foi minha vida. A escola mais atrapalhou que ajudou, sorte que eu nunca gostei de guardar caraminholas e sempre soube o que queria.

Aprendi a ser gente lendo lombada, desrespeitando meus ídolos, redescobrindo as referências da minha infância. Só espero dar aos meus filhos, ainda vindouros, as mesmas oportunidades.

Chove Chuva. Pela poesia, os poetas loucos e as bibliotecas inspiradoras....

bjs,

Moira

2 comentários:

  1. beleza Mo... "esse negócio de ser o que a gente é ainda vai nos levar além..."
    lindo texto.
    bj

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  2. essa citação da mensagem anterior é Leminski tb não é? e talvez ela não seja literalmente assim. mas pra mim, sendo o que se é, é. então já é e até o além!

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